Há mais de duas décadas, Raimundo Rodriguez transforma latas de tinta em paisagens. Fragmentos de metal marcados pelo tempo, pela pintura, pela ferrugem e pelo uso tornam-se territórios imaginários onde memória, arquitetura, cultura popular e identidade brasileira se encontram. Essa pesquisa, reunida sob o título Latifúndios, consolidou-se como um dos conjuntos mais importantes de sua trajetória artística.
A Galeria Eduardo Albini apresenta, a partir de 4 de setembro, uma exposição com cerca de 40 obras que atravessa diferentes momentos dessa pesquisa, aproximando trabalhos oriundos de desdobramentos como as Quadrelas Fluminenses, as composições inspiradas na geometrização da arquitetura popular e das Festas do Interior — em diálogo com o universo cromático de Alfredo Volpi — e obras pertencentes ao próprio núcleo de Latifúndios.
Mais do que apresentar uma série fechada, a exposição revela como diferentes investigações de Raimundo Rodriguez se articulam a partir de uma mesma relação com a matéria, o tempo e a memória. Latas, madeiras e fragmentos encontrados preservam as marcas de suas existências anteriores e são reorganizados pelo artista em novas configurações. Ferrugem, desgaste, camadas de tinta e imperfeições não são apagados: tornam-se parte da própria linguagem da obra.
A série Quadrelas Fluminenses, uma das vertentes presentes na exposição, nasceu da observação dos muros, paredes e fachadas da Baixada Fluminense. A arquitetura espontânea e a geometria popular reaparecem transformadas em composições construídas principalmente com madeira e lata, materiais que ocupam lugar central no imaginário do artista.
Como observa o crítico Júlio Ferreira Sekiguchi sobre sua produção:
“Uma característica do movimento criador de Raimundo é a preocupação com o descartado e com as sobras do mundo. Por necessidade interna, o artista é impelido a recolher o que foi rejeitado para, através da arte, reinseri-los no mundo.”
Em Festa do Interior, bandeiras, fachadas e geometrias estabelecem um diálogo afetivo com a síntese visual de Alfredo Volpi. Não se trata, entretanto, de uma citação formal, mas de uma aproximação poética entre a tradição moderna brasileira e a pulsação cromática das festas populares.
O título Latifúndios, criado pelo próprio artista, propõe um jogo de palavras entre “lata” e “latifúndio”. A chapa metálica, antes destinada ao descarte e ao esquecimento, é reconquistada pelo artista e passa a ocupar novos territórios. Recortados, sobrepostos e reorganizados, seus fragmentos transformam-se em paisagens poéticas, cidades imaginárias e cartografias afetivas, numa linguagem situada na fronteira entre pintura, objeto e escultura.
Nesse processo, Raimundo constrói uma verdadeira poética do vestígio. O que foi deixado à margem retorna carregando as marcas do tempo e de sua história anterior. A pátina, a ferrugem e as sucessivas camadas de tinta deixam de ser sinais de deterioração para se tornar testemunhos de existência. Em Latifúndios, a memória não é apenas tema: está inscrita fisicamente na matéria.
Foi justamente a singularidade dessa pesquisa que levou seu trabalho a ultrapassar os limites da galeria. A linguagem desenvolvida por Raimundo inspirou a construção da fictícia Vila de Santa Fé, cenário da novela Meu Pedacinho de Chão, dirigida por Luiz Fernando Carvalho, e posteriormente integrou também a concepção visual de Velho Chico, reafirmando a potência de sua obra no diálogo entre arte contemporânea e cultura brasileira.
Nascido em Santa Quitéria (CE) e radicado no Rio de Janeiro desde a infância, Raimundo Rodriguez é um dos artistas mais inventivos de sua geração. Fundador do coletivo Imaginário Periférico e sócio da Galeria Portão Vermelho, na Fábrica Bhering, desenvolve há mais de quatro décadas uma produção marcada pela experimentação, pela apropriação de materiais encontrados e pelo diálogo permanente entre arte popular, memória e contemporaneidade.
Ao apresentar Latifúndios, a Galeria Eduardo Albini reafirma seu interesse por artistas cujas pesquisas estabelecem relações entre arte, território e identidade cultural. Na Serra da Mantiqueira, a obra de Raimundo encontra um novo território e aproxima diferentes geografias brasileiras, mostrando como a arte pode deslocar materiais, preservar memórias e atribuir novos sentidos àquilo que o cotidiano deixou para trás.
GONÇALVES E O NOVO CIRCUITO DAS ARTES
Conhecida pela paisagem, pela gastronomia e pela relação próxima com a natureza, Gonçalves vive também um momento de crescente efervescência no campo das artes visuais. A presença de artistas que escolheram a cidade e a Serra da Mantiqueira como lugar de vida e criação, somada à abertura de ateliês, galerias e espaços independentes, vem desenhando uma nova geografia cultural no município.
É um movimento que nasce de maneira espontânea e ganha força a partir da aproximação entre artistas, espaços culturais, moradores e visitantes. Ateliês abertos ao público, exposições, encontros e iniciativas coletivas começam a formar um circuito próprio, ampliando a vocação cultural de Gonçalves e incorporando a produção artística contemporânea à experiência de quem vive ou passa pela cidade.
Nesse contexto, a chegada de artistas de diferentes trajetórias e regiões do país não substitui a identidade local: amplia seus diálogos. Entre a tradição, a produção artesanal, a paisagem e as práticas contemporâneas, Gonçalves começa a afirmar um território onde criação artística e vida cotidiana se encontram de maneira cada vez mais presente.
SOBRE A GALERIA EDUARDO ALBINI
@galeriaeduardoalbini
Inaugurada em 2026, a Galeria Eduardo Albini chega à sua terceira exposição tendo como eixo curatorial “Exposições, processos e outras formas de olhar”. A partir dessa perspectiva, desenvolve uma programação voltada à arte brasileira contemporânea, reunindo artistas e pesquisas que estabelecem diálogos com memória, território, cultura popular e diferentes modos de compreender o presente.
Localizada no centro de Gonçalves (MG), a galeria integra esse novo movimento das artes visuais na Serra da Mantiqueira, promovendo exposições e encontros e criando um espaço de aproximação entre artistas, moradores, colecionadores e visitantes.
Exposição: Latifúndios, de Raimundo Rodriguez
Abertura: 4 de setembro de 2026 (sexta-feira), às 18h
Visitação: de 4 de setembro a 30 de novembro de 2026
Funcionamento: de quinta a segunda-feira, das 10h às 18h
Local: Galeria Eduardo Albini
Endereço: Rua Capitão Antônio Carlos, 235 – Centro – Gonçalves/MG












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