Trançar é também contar quem somos – até 12/12

Em sua segunda edição, “Trançar e Contar Histórias – Um Resgate Ancestral” reúne rodas de conversa, história musicada e oficinas de tranças e turbantes em Belo Horizonte

O cabelo crespo é retrato ancestral e, antes de se tornar penteado, a trança nasce como gesto de cuidado, encontro e transmissão. Entre mãos que se aproximam, fios que se cruzam e técnicas que passam de uma geração a outra, também circulam histórias, memórias e formas de reconhecer a própria identidade. É desse lugar de força e continuidade que parte a segunda edição do projeto “Trançar e Contar Histórias – Um Resgate Ancestral”, que começa no dia 26 de setembro (sábado), em Belo Horizonte.

Realizada com recursos da Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte, a iniciativa segue até 12 de dezembro com uma programação que atravessa diferentes dimensões da cultura afro-brasileira. Serão realizados encontros com rodas de conversa, história musicada, oficinas de tranças nagô, box braids, práticas coletivas de trançado e amarrações de turbantes.

O projeto fala de resistência, mas escolhe não fazer da dor o único lugar possível para contar a experiência negra. De acordo com Ana Paula Barbosa, comunicadora e idealizadora da iniciativa, a resistência do povo negro também se materializa na preservação da ancestralidade, no conhecimento, no reconhecimento da beleza na própria imagem, no fortalecimento de vínculos e na criação. “Acredito que a nossa força renasce no coletivo, nos ensinamentos e quando permitimos que o saber recebido de outras gerações encontre novos caminhos no presente”, conta.

Essa perspectiva já aparece no primeiro encontro. No dia 26 de setembro, a programação será aberta com uma roda de conversa conduzida por uma psicóloga social. A partir de imagens de pessoas com diferentes tipos de tranças, o grupo será convidado a refletir sobre identidade, representatividade e as percepções construídas socialmente em torno da estética negra.

Em outubro, a palavra encontra a música. No dia 10, a história musicada “Trança e Trança”, de Malu Modesto Coleta, aborda ancestralidade, identidade e esperança por meio da contação de histórias. Nos encontros seguintes, o conhecimento também passa pelas mãos.

A programação avança pelas técnicas de trança nagô e box braids, pela prática coletiva entre as participantes e pelas amarrações de turbantes, sempre relacionando o aprendizado aos saberes e às referências das culturas africanas e afro-brasileiras. A relação de Ana Paula com esse tema começou dentro de casa. Formada em Comunicação Social e mãe de Ana Beatriz (13) e Eduardo (7), ela encontrou nos cuidados com o cabelo crespo um caminho de reencontro com a própria ancestralidade e, posteriormente, de atuação social.

Há alguns anos, quando Bia tinha quatro anos, Ana chegou em casa e encontrou a filha chorando, com uma tesoura nas mãos. A menina havia cortado uma parte do próprio cabelo porque não queria que ele ficasse “para cima”. Aquele episódio mudou a maneira como Ana compreendia sua relação com o cabelo, a maternidade e a construção de outras referências para a filha.

Mesmo anos depois, a voz da mãe ainda embarga ao se lembrar da cena. “Meu coração doeu, mas ali eu entendi que meu compromisso era aprender a cuidar das dores da minha filha e ensinar outras mães a acolherem as filhas delas”, relembra.

A partir daí, Ana passou a buscar formação, participar de iniciativas sociais e aprofundar sua relação com os cuidados dos cabelos crespos. O que começou como uma experiência entre mãe e filha ganhou dimensão coletiva e se transformou em um trabalho voltado à autoestima, à identidade, ao empreendedorismo social e à valorização dos saberes identitários.

O nascimento da partilha 

Nesse percurso de saber surgiu “Trançar e Contar Histórias”. Para Ana, o aprendizado de uma técnica ganha outro significado quando vem acompanhado da compreensão sobre aquilo que ela carrega. “Eu não quero que uma pessoa saia do projeto apenas sabendo fazer uma trança. Quero que ela entenda o valor desse conhecimento, que olhe para o próprio cabelo de outra forma e perceba que há uma história ali. Quando esse saber passa de uma pessoa para outra, ele continua vivo”, afirma.

O encerramento das oficinas acontecerá no dia 12 de dezembro, com uma nova roda de conversa. Depois de semanas de trocas, aprendizado e prática, as participantes poderão compartilhar as experiências e os impactos vividos ao longo do percurso. A fotografia fecha um ciclo que se inicia justamente pelo olhar. Isso porque, a jornada do processo se abre no primeiro encontro a partir de uma indagação: “O que você enxerga ao observar uma pessoa com tranças?”

A pergunta que aparece como embrião será, na verdade, o condutor de todo processo estruturado por Ana Paula. Por isso, o fechamento do projeto com cada participante assumindo o protagonismo diante da câmera é tão relevante. 

Trançar e Contar Histórias – Um Resgate Ancestral | 2ª edição
Período: 26 de setembro a 12 de dezembro de 2026
Horário: sábados, das 9h às 11h
Local: Centro Cultural Bairro das Indústrias
Endereço: Rua dos Industriários, 289 – Bairro das Indústrias – Belo Horizonte/MG

Programação
26/09 – Roda de conversa / Abertura
10/10 – História Musicada: Trança e Trança
07/11 – Oficina de Tranças Nagô
14/11 – Oficina prática de tranças
28/11 – Oficina de Box Braids
05/12 – Oficina de Amarrações em Turbantes
12/12 – Roda de conversa / Encerramento