Espetáculo da Confesso Escola de Teatro marca o retorno do diretor Guilherme Colina e propõe um olhar contemporâneo sobre desejo, intimidade, violência e as relações humanas
Duas irmãs. Dois casamentos. Uma mesma casa. E um pacto capaz de transformar amor em desejo, desejo em posse e intimidade em violência. É nesse território que se movimenta “A Serpente”, última peça escrita por Nelson Rodrigues, que ganha nova montagem da Confesso Escola de Teatro, com direção de Guilherme Colina. O espetáculo será apresentado nos dias 17, 18, 22 e 23 de outubro, no Teatro da Cidade, em Belo Horizonte.
O retorno de Guilherme Colina a Nelson Rodrigues
A montagem reúne Bruno Venna, Carol Carva, Emilliano e Simone Ribeiro, atores já formados pela Confesso Escola de Teatro, além da atriz convidada Efigênia Maria. O espetáculo também marca o retorno de Guilherme Colina à direção teatral após um hiato de dois anos. Sua última montagem foi Cesarismo, espetáculo autoral, em 2024.
Aos 22 anos de carreira, Colina reencontra a dramaturgia de Nelson Rodrigues em uma curiosa coincidência de trajetória: suas duas incursões pelas obras do dramaturgo aconteceram em peças que carregam animais no título. Primeiro, Os Sete Gatinhos, em 2022, e agora, A Serpente.
“Talvez não seja só coincidência. Há alguma coisa de bicho no universo rodriguiano e alguma coisa profundamente humana nisso. O desejo antes de ser organizado pela razão. A pulsão que nos aproxima, nos repele, nos faz amar, ferir, desejar, proteger, destruir. “, observa Colina.
O “bicho-homem” por trás das relações
Na nova montagem, a referência aos animais ganha outra dimensão na investigação do diretor sobre o chamado “bicho-homem”: aquilo que existe de instintivo e contraditório nas relações humanas, quando desejo, ciúme, amor, culpa e medo deixam de caber nas regras de convivência.
“Essas cenas o público vive em casa, na intimidade, é nela que as paixões ganham força e liberdade, para cuidar ou destruir. Talvez ele não a vivencie com aquelas palavras – as de Nelson. Mas conhece. O público que vê, conhece, percebe o que é verossímil ou não. Portanto, nosso trabalho, de nós artistas da cena, é aprofundar nas camadas mais profundas do texto “, afirma o Diretor.
A proposta da encenação é preservar a contundência da dramaturgia rodriguiana, mas permitir que o texto seja atravessado por questões do presente. A montagem vai além de colocar na cena teatral Nelson Rodrigues, ela pergunta: o que essa obra provoca quando vista pelos artistas e pelo público de 2026.
Quando a personagem rompe a ficção
Uma das principais escolhas da montagem acontece com Crioula, interpretada por Efigênia Maria. A personagem, marcada pela construção histórica e racial presente na dramaturgia original, ganha uma intervenção que rompe momentaneamente a lógica da ficção.
Crioula deixa de ser apenas uma personagem daquela casa e passa a se dirigir diretamente à plateia, colocando em questão o lugar que lhe foi atribuído. “Você me vê? Ou vê apenas o nome que me deram?”, pergunta.
O espetáculo ainda rompe com as barreiras dos tempos antigos, ao abordar temas como a violência física e psicológica contra a mulher. “A peça faz o público pensar nessas questões ao ver aquele cotidiano violento”, explica o diretor.
Para Colina, é justamente na intimidade que as máscaras começam a cair. “Quanto mais íntimos somos de alguém, mais sabemos exatamente onde tocar. Para amar. E para machucar.” É desse lugar que nasce a provocação central da montagem: o que somos capazes de fazer quando amar, possuir e perder passam a ocupar o mesmo espaço?
Entre o desejo e a ferida
Apesar de atravessar temas como violência, posse, frustração e morte, A Serpente também preserva o humor e a dimensão humana presentes na dramaturgia de Nelson Rodrigues. Para Colina, o interesse está justamente naquilo que surge quando as relações deixam de caber em definições simples.
O resultado é uma montagem que procura fazer conviver diferentes camadas: o clássico e o presente, o riso e a violência, o desejo e a culpa, a intimidade e o confronto.
A Serpente
Texto: Nelson Rodrigues
Espetáculo de Guilherme Colina
Realização: Confesso Escola de Teatro
Elenco: Bruno Venna, Carol Carva, Emilliano, Simone Ribeiro e Efigênia Maria (atriz convidada)
17/10 (sábado) – 20h
18/10 (domingo) – 19h
22/10 (quinta-feira) – 20h
23/10 (sexta-feira) – 20h
Local: Teatro da Cidade — Rua da Bahia, 1341, Centro, Belo Horizonte/MG
Classificação: 16 anos
Ingressos preço único de 40 reais, pelo sympla (https://www.sympla.com.br/evento/a-serpente/3576889)












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