Exposição “Polifonia da Presença”, de Leonardo Barcelos – 18/09 a 23/10

Primeira grande exposição imersiva a transpor integralmente uma trilogia cinematográfica para a linguagem expositiva propõe uma travessia pelo corpo, pela memória e pela identidade, e reúne nomes fundamentais da performance contemporânea. Abertura acontece no dia 18 de setembro, no Centro Cultural UFMG.

De 18 de setembro a 23 de outubro, Belo Horizonte recebe a exposição imersiva “Polifonia da Presença”, do diretor, roteirista e produtor Leonardo Barcelos. Com entrada gratuita, o projeto ocupa as galerias do Centro Cultural UFMG e propõe uma nova forma de experimentar o cinema documental, transformando imagens, sons, gestos e atmosferas cinematográficas em um convite para que o público não apenas assista aos trabalhos, mas entre nas obras. A mostra marca também a pré-estreia mundial de “Cartografias do Corpo”, série documental criada e dirigida por Leonardo Barcelos que reúne artistas como Zé Celso Martinez, Marina Abramović, ORLAN, Ayrson Heráclito, Paulo Nazareth, Natacha Voliakovsky, Carlos Martiel, além dos especialistas Suely Rolnik e Ailton Krenak.

Este projeto é realizado com recursos da Lei Estadual de Incentivo à Cultura de Minas Gerais e do Fundo Municipal de Cultura de Belo Horizonte, por meio da Fundação Municipal de Cultura e da Prefeitura de Belo Horizonte.

“Polifonia da Presença” nasce de uma pesquisa audiovisual desenvolvida ao longo de mais de dez anos por Leonardo Barcelos em colaboração com diferentes roteiristas, pesquisadores e profissionais que participaram das obras da Trilogia do Corpo. Entre eles estão os roteiristas Tiago Tereza, Laura Coggiola e Christiane Tassis, o produtor André Hallak, Joana Braga e o diretor de fotografia Vagner Jabour. A investigação deu origem aos longas “Corpo Presente” e “O Que Pode o Corpo?” e à série documental “Cartografias do Corpo”. As obras pesquisam o corpo como território de presença, memória, política e criação, e já circularam por festivais, mostras, instituições culturais e espaços de formação no Brasil e no exterior. “A exposição parte de uma pesquisa artística desenvolvida ao longo de vários anos sobre o corpo no mundo contemporâneo, suas diferentes camadas, transformações, disputas e possibilidades. A pesquisa observa o corpo como matéria biológica, construção subjetiva, território político e espaço de invenção”, explica Leonardo Barcelos, diretor artístico da exposição.

O ineditismo do projeto está justamente na passagem do cinema para o espaço expositivo. Pela primeira vez, uma trilogia cinematográfica completa é transposta integralmente para uma linguagem imersiva e instalativa. Não se trata de simplesmente exibir filmes em um espaço cultural, mas de fazer com que suas imagens e sons ocupem fisicamente o ambiente e sejam atravessados pelo próprio corpo do visitante. “O objetivo é transformar essa pesquisa audiovisual em uma experiência corporal e sensorial. Mais do que transmitir conteúdos ou oferecer respostas fechadas, a exposição quer criar condições para que o público experimente essas questões por meio das imagens, dos sons, da luz, da fumaça, dos reflexos e dos diferentes materiais presentes nas instalações”, afirma Leonardo.

A exposição é organizada como um percurso contínuo por quatro núcleos interligados – “A Origem”, “A Matéria”, “O Outro” e “A Voz” –, que conduzem o visitante por diferentes configurações espaciais e intensidades sensoriais. Elementos visuais, sonoros e arquitetônicos estabelecem conexões entre os ambientes, fazendo da travessia uma parte fundamental da experiência.

“Ao se misturarem aos nossos próprios corpos, as imagens operam uma fricção constante entre matéria, memória e alteridade. Organizada em quatro eixos que se contaminam continuamente, a exposição propõe uma travessia sensível, convidando a dissolver as certezas do olhar e a experimentar o corpo como um território de invenção”, comenta Eduardo de Jesus, que assina o texto curatorial.

Em “A Origem”, uma grande projeção com imagens de “Corpo Presente” funciona como um portal visual. Raízes atravessam paredes e chão e conduzem o público até um espelho d’água, onde projeções, luz e fumaça criam um ambiente de passagem entre corpo, matéria e energia. O núcleo aborda a ancestralidade, a transformação e os ciclos da matéria.

“A Matéria” aproxima o corpo das ideias de gestação, criação, cuidado e transformação. Módulos circulares de tecido recebem projeções e iluminação cênica, enquanto uma cúpula de vidro, imagens e areia branca compõem um ambiente que pode remeter simultaneamente a um útero, um organismo, um planeta ou ao próprio universo. O núcleo também estabelece um diálogo direto com a performance de Ludmilla Ramalho, que encerra a programação da exposição no dia 23 de outubro.

Já “O Outro” propõe uma experiência de encontro e alteridade. Em um percurso labiríntico formado por espelhos, vidros, superfícies reflexivas, materiais translúcidos e projeções, o visitante vê seu próprio corpo misturado às imagens de outras pessoas. A experiência desloca a percepção de identidade e convida à reflexão sobre reconhecimento, diferença e pertencimento.

No núcleo “A Voz”, o corpo deixa de ser apenas imagem e passa a se afirmar também como discurso, memória e posição no mundo. Quatro telas apresentam diferentes eixos temáticos construídos a partir de trechos da série inédita Cartografias do Corpo, reunindo depoimentos, performances e fragmentos audiovisuais de artistas, pensadores, ativistas e personagens de diferentes gerações e contextos. As vozes abordam questões como identidade, gênero, raça, ancestralidade, território, tecnologia, opressão e emancipação, formando um campo de escuta em que experiências individuais se cruzam e ganham dimensão coletiva.

Entre os nomes presentes estão Marina Abramović, Ailton Krenak, Érica Hilton, Suely Rolnik, Zé Celso Martinez Corrêa, Ayrson Heráclito, Regina José Galindo, Carlos Martiel, Paulo Nazareth, Edgar Xakriabá, Zahy Guajajara, Jup do Bairro, Viktoria Modesta, ORLAN e Berna Reale. Mais do que apresentar depoimentos isolados, o núcleo coloca essas falas em relação, fazendo emergir tensões, convergências e diferentes formas de resistência e reinvenção do corpo contemporâneo. É dessa sobreposição de presenças, discursos e experiências que nasce a polifonia que dá nome à exposição. “As vozes não aparecem isoladamente: elas se cruzam e reverberam umas nas outras, formando a polifonia que dá nome à exposição”, destaca o diretor.

A exposição chega a Belo Horizonte em um momento de intensificação dos debates sobre corpo, identidade, território e representação. Corpos negros, indígenas, trans, LGBTQIA+, periféricos, com deficiência e outros corpos historicamente marginalizados ocupam hoje espaços cada vez mais importantes de produção de discurso e disputa simbólica. Para Leonardo Barcelos, essas questões atravessam diferentes tempos e permanecem urgentes. “Muitas das reivindicações presentes nas obras – relacionadas ao feminismo, às populações negras e indígenas, às pessoas LGBTQIA+ e a outros corpos historicamente marginalizados – atravessam diferentes décadas e permanecem atuais. A exposição procura mostrar tanto a persistência desses conflitos quanto a capacidade desses corpos de criar novas formas de existência, representação e transformação”.

Nesse sentido, “Polifonia da Presença” não pretende oferecer uma experiência exclusivamente racional ou explicativa. O corpo do visitante é parte constitutiva da obra. “A exposição não pretende funcionar apenas como uma explicação racional. O próprio corpo do visitante completa o trabalho”, afirma Barcelos. “Talvez o visitante não saia necessariamente com uma definição exata sobre tudo o que viu, mas poderá sentir essas questões e perceber como elas atravessam sua própria experiência no mundo”, completa Leonardo Barcelos.

Pré-estreia de “Cartografias do Corpo”

A programação de Polifonia da Presença também marca a pré-estreia de “Cartografias do Corpo”, série documental criada e dirigida por Leonardo Barcelos, composta por 13 episódios de 26 minutos. Gravada no Brasil e em cidades como Nova York, Berlim e Paris, a série reúne artistas, pensadores, pesquisadores e ativistas de diferentes países e trajetórias em torno das relações entre corpo, identidade, território, performance, tecnologia e política.

A pré-estreia acontece no dia 8 de outubro, às 18h, no Auditório do Centro Cultural UFMG, com a exibição de dois episódios selecionados para apresentar alguns dos principais eixos e questões que atravessam a série. Entre os artistas e pensadores presentes em Cartografias do Corpo estão Zé Celso Martinez Corrêa, Marina Abramović, Marco Paulo Rolla, Natacha Voliakovsky, Carlos Martiel, Paula Garcia, Suely Rolnik e Christine Mello, entre muitos outros.

Na sequência, das 19h às 21h, acontece o debate “O Corpo como Arquivo, Território e Fronteira”, que reunirá diferentes perspectivas sobre corpo, imagem, memória, performance e criação artística em diálogo com a exposição e com a série. A mesa terá mediação de Eduardo de Jesus, pesquisador, curador e professor, e contará com a participação de Leonardo Barcelos, cineasta e diretor da exposição; Carlos Mendonça, pesquisador e professor com atuação nos estudos da performance; Hélio Lauar, psicanalista; e Ana Luisa Santos, artista, performer e pesquisadora.

Programação formativa – A experiência proposta pela mostra vai além das instalações, com uma programação paralela de atividades educativas, ações de mediação, exibições, conversas e performances, criada para aproximar o público dos temas centrais da Trilogia do Corpo: corpo, imagem, alteridade e política.

No dia 23 de outubro, às 17h, a artista multimídia Ludmilla Ramalho realiza uma performance que estabelece um diálogo entre imagens de sua gravidez registradas no longa “Corpo Presente” e sua presença atual ao lado da filha, hoje com seis anos. Em cena, mãe e filha compartilham o mesmo espaço de queda e cuidado. A partir do questionamento “quanto pesa um corpo que cuida?”, a performance investiga a maternidade como experiência de exaustão, vínculo e interdependência. “Existe um encontro entre diferentes tempos do mesmo corpo: o corpo grávido registrado no passado; o corpo da artista no presente; e a presença da filha como continuidade daquela experiência. A intervenção faz com que a imagem registrada deixe de ser apenas documento e volte a se tornar uma experiência viva”, explica Leonardo Barcelos.

No dia 24 de setembro, das 18h às 20h, a exposição recebe a exibição de “O Que Pode o Corpo?”, documentário de 73 minutos criado e dirigido por Leonardo Barcelos, realizado em Minas Gerais em 2024. O filme investiga o corpo como expressão e lugar de debate público no mundo contemporâneo, aproximando performance, identidade, cultura e política. A sessão será seguida de um debate com Leonardo Barcelos.

As atividades cinematográficas prosseguem em 1º de outubro, das 18h às 20h, com a exibição de “Corpo Presente”. Dirigido por Barcelos, o documentário de 79 minutos, realizado em 2023, explora o corpo como território de memória, expressão e resistência. Acompanhando a jornada de uma artista que investiga a própria corporeidade, o filme entrelaça encontros com performers e pensadores que refletem sobre identidade, política e transformação. Com imagens de arquivo e performances inéditas, a obra propõe um olhar sensorial e crítico sobre os múltiplos significados do corpo na contemporaneidade. Após a sessão, haverá debate com Leonardo Barcelos e Ludmilla Ramalho.

A programação segue em 14 de outubro, das 18h às 20h, com nova exibição de episódios de “Cartografias do Corpo”. A sessão apresentará dois ou três episódios da série, ampliando o contato do público com a pesquisa documental que estrutura parte importante da exposição.

 

Sobre Leonardo Barcelos – Cineasta e roteirista com mais de 25 anos de atuação no audiovisual e nas artes contemporâneas. Radicado em Belo Horizonte, desenvolve narrativas híbridas que transitam entre cinema, performance e artes visuais. É bacharel em Comunicação Social UFMG e pós-graduado em Comunicação, Novas Tecnologias e Hipermídia UNI BH. Seus filmes foram exibidos em mais de 40 países, em festivais, museus e instituições culturais da América Latina, Europa e Estados Unidos. Foi membro fundador do Coletivo Teia, referência no audiovisual brasileiro contemporâneo, com obras apresentadas em festivais como Berlinale, Veneza, Toronto, Locarno, Rotterdam, Sundance e San Sebastián, além de instituições como MoMA, New Museum e Inhotim. Dirigiu os documentários Balança Mas Não Cai (2012), Corpo Presente (2023), com estreias na Mostra de Tiradentes e no Festival de Havana, e O Que Pode o Corpo? (2024). Também criou a série documental Cartografias do Corpo (13 × 26 min) e atualmente finaliza o longa híbrido Territórios do Sensível.

Ficha técnica

Produtora: Tandera Filmes; Co-produção: Trem Chic Cinevideolab; Direção e concepção artística: Leonardo Barcelos;  Produção Executiva: Leonardo Barcelos;  Produção Bárbara Burgarelli e Mariana Takamatsu; Arquitetura e Expografia: Nathália Larsen; Textos Curatoriais: Eduardo Jesus; Coordenação Técnica Audiovisual: Leandro Aragão; Montagem:  Igor Hermont e Ana Katherine; Edição de vídeos: Tiago Tereza e Gabriel Penna;  Designer gráfico:  Alexandre Brandão ; Redes Sociais: UMA Assessoria; Assessoria de Imprensa: Cristina Sanches (CS Comunicação e Arte); Performance:  Ludmilla Ramalho; Convidados – Mesa de Debate “O Corpo como Arquivo, Território e Fronteira”: Eduardo de Jesus; Ana Luísa Santos; Carlos Mendonça; e Hélio Lauar.

 

Polifonia da Presença
Data: 18 de setembro a 25 de outubro de 2026
Grande Galeria do Centro Cultural UFMG (salas 1 a 5)

Horários: terça à sexta, das 12h às 20h. Sábado, domingo e feriados, das 9h às 17h
Entrada: gratuita